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O BRETÃO COMO MELHORADOR DO CAVALO DE SELA PARA SERVIÇO

Sergio Lima Beck*

        Entre as muitas virtudes conhecidas da raça Bretã estão: rusticidade; sobriedade alimentar; docilidade; força para puxar toras de madeira em florestas; potência e elegância para atrelagem de turismo ou de serviço; facilidade para tracionar implementos agrícolas; perfeita para o esporte do Volteio; fêmeas consideradas ótimas para receptoras de embrião, possuidoras de muita habilidade materna e preferidas para amas de leite (produzem até 25 litros/dia).
Em nosso país uma virtude ainda pouco conhecida é o fato de a raça Bretã ser também uma ótima opção para cruzamentos que visem o melhoramento do nosso rebanho de cavalos de sela comuns, isto é, sem raça definida, usados principalmente para o serviço de lida com gado. Diga-se de passagem, este tipo de cavalo de sela ainda é a maioria do rebanho eqüino no Brasil.
Mas como é que uma raça pesada de tração pode melhorar um cavalo de sela? Não seria este um cruzamento incompatível? Achamos que não. Muito pelo contrário e é o que tentaremos explicar aqui.


Pesado x Leve
         O choque do pesado de tração com o leve de sela não é incompatível nem novidade. Algumas raças pesadas de tração, na sua formação, tiveram a contribuição dos sangues leves de sela. É o caso, por exemplo, do Percheron que levou sangue de sela do Árabe na sua construção. Da mesma forma algumas raças de sela tiveram sangue pesado de tração na sua formação. É o caso, por exemplo, da alemã Hanoveriana. Até hoje as raças especializadas no Hipismo Clássico derivam, quase sempre, do Puro Sangue Inglês mais a raça local e algum grau de sangue pesado de tração.
Também em muitas raças de sela aptas para a lida com gado encontramos a contribuição de algum sangue pesado de tração. Como exemplo podemos citar a Quarto de Milha e a Andaluz (Lusitano ou Espanhol). Ambas, conforme suas origens mais citadas na literatura, não poderiam ter o porte nem a massa muscular que possuem sem a contribuição, pouco declarada, de algum sangue pesado de tração. O longilíneo Puro sangue Inglês sobre o pequeno Mustangue não seria suficiente para produzir o musculoso Quarto de Milha, sem a contribuição do sangue pesado de tração dos colonos que fundaram as 13 colônias agrícolas da costa leste da América do Norte, depois EUA. A garupa volumosa, chata, inclinada e dividida, o dorso-lombo curto e os costados bem arqueados, além do temperamento calmo, são alguns dos claros indícios do sangue de tração na origem do Quarto de Milha. Da mesma forma, o pescoço rodado, de saída baixa, relativamente curto e grosso do Andaluz, mais seu dorso-lombo não comprido e sua garupa volumosa, configurando tudo belas formas arredondadas, mostram que ele não se originou só do precário Berbere sobre os franzinos nativos da Península Ibérica. Andaluz vem de Andaluzia, que por sua vez vem de Vandaluzia, terra do sul da Península Ibérica ocupada pelos vândalos do norte da Europa, os quais, como se sabe, usavam cavalos de origem dos pesados de tração.

Biótipo para lida com gado
      O biótipo do cavalo de sela para o serviço de campo na lida com gado deve ter, preferentemente, as seguintes características:

1) Porte médio para poder fazer frente a todo tipo e tamanho de bovino. Ademais, um porte grande não se presta ao freqüente montar e desmontar que o serviço impõe. Cavalos muito altos não são nada práticos para serviço de sela.
2) Dorso-lombo não comprido, para favorecer a agilidade e os volteios.
3) Boa profundidade torácica. Cavalos não pernaltas, isto é, sem muita luz por baixo, têm centro de gravidade relativamente perto do chão e, portanto, mais estabilidade.
4) Facilidade de galope e temperamento calmo. A lida com gado requer capacidade de explosão e imediato retorno à calma.

      Não é por acaso que tanto o Quarto de Milha como o Andaluz se encaixam perfeitamente nessas características do biótipo de sela para lida com gado. Ambas tiveram a contribuição genética dos sangues pesados de tração. E ambas são reconhecidamente excelentes para a lida com gado.


Deficiências do nosso cavalo comum de sela
      Nas fazendas em geral, inclusive no serviço urbano de carroceamento, nossos cavalos comuns, sem raça definida, normalmente carecem de mais ossatura, mais musculatura e mais porte. É que na origem derivam, na sua grande maioria, do Berbere e das raças nativas da Península Ibérica. Esta origem é quase toda pobre de beleza, de estrutura e de conformação. Cruzando com raças pesadas de tração chegamos mais rápido a um melhoramento do nosso cavalo comum de sela.


Mas entre as raças pesadas de tração por que optar pela Bretã?
        Das raças pesadas de tração a Bretã é das menos pernalta, como convém ao biótipo de lida com gado.
Das raças pesadas a Bretã é a que possui mais variação de tamanho, satisfazendo todos os gostos e necessidades de altura para cruzamentos.
       Das raças pesadas a Bretã é a de melhores andamentos, mais soltos, mais amplos, mais articulados, mais cadenciados, mais brilhantes. É encantador ver como aquela enorme massa muscular consegue se mover com tanta leveza e tanta graça. Até o galope é fácil.
       Das raças pesadas a Bretã é a que existe em maior quantidade no Brasil. Portanto é a raça mais acessível para cruzamentos.


Conclusão

      Cruzar com o Bretão, uma excelente opção.

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* O autor é professor de Etnologia Eqüina na PUC-PR.

 


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